Na casa  ficaram a vitrola e os vinis, e uma fome do que não se devorou, mas se quis.

Dia outro, os pés voltaram a percorrer a casa e se desvestiram dos sapatos pra sentir o piso, tornar pro chão. Foi quando o chão se fez céu. Ligou o que sobrou naquele espaço, e a música ocupou o vazio. Então o vazio zombou, porque nunca estivera ali, e as lembranças mostraram as mãos e se agarraram nas paredes, insinuantes, com poses de provocação.

Ela apenas assistia. Eram corpos que se fundiam, se enroscavam, se perdiam, se encontravam – descoberta. Eram voltas e voltas, e ela ali, descalça, assistindo a desejos. Desejos são atores na performance de uma monólogo, mesmo misturados a vários outros. Toda a verdade do mundo  vive senhora em cada um. E os corpos iam, voltavam, e as mãos sem pudor  se agarravam ao chão, ao teto, a ela.

E a música tocava. Tudo tocava.

Por um vinil o tempo parou pra ser mil coisas, sem ser nada, absolutamente nada. Ela assistia, quieta, respirando baixo, contendo os suspiros e negando as vontades.

Foi embora levando os sapatos na mão direita. Nem sequer desligou a vitrola.

Assim foi a segunda vez que se foi sem dizer do fim.

A isso eu chamo reticências, alguns, covardia.