No mercado central, duas meninas sentadas no chão, com lápis e caderneta de papel, rascunhavam os ângulos das bancas. Estudantes de arquitetura… Um senhor com a bengala encostada dobrava o jornal, fazia palavras cruzadas, lápis em punho; acomodado nas muretas da entrada. Na entrada há palmeiras que eu namoro sempre. Ao lado, uma venda árabe, com uma estrela vermelha pregada, não sei o significado, depois volto pra perguntar. Meus por quês movem minhas pernas curtas. E lá dentro os senhores, os jalecos, e um novato de pouco mais de 14 anos. Descobriu-se negociante, jurou-me que sempre estaria ali, precisando eu.

- Manteiga de garrafa, tem?

- Tem.

-Mas só tem esse tantão, quero tantinho.

Me riu e eu ri de volta. Mais adiante, me conformei com meio litro, muito pra quem vive só.

Mel de jataí que é abelha e não cidade.

Voltando pra casa, um senhor saltitava com suas pernas tatuadas na travessia da avenida 3.

Depois saí de carro. Na marginal, abaixo das pontes grafitadas que sempre olho, um outro senhor bem barbado. Um barbão branco, camiseta amarela, corria como vitorioso de uma maratona. Tão sozinho e tão velho, corria. Uma figura diferente, ele. Erguia a garrafa de água que combinava com sua camisa, a ela emprestava ar de troféu, talvez lhe fosse isso. Parecia feliz. Não questionei nem rejeitei a aparência de felicidade.

Pensei nisto de felicidade. Isto tão sem segredo, isto de deixar as coisas serem, porque elas são.

Não se trata de ser Poliana, algumas coisas são realmente simples e bonitas.  Falo do que de fato é belo, simples e despretensioso. Eu não distorci visões, não me forcei aprendizados, apenas reparei.

Algumas coisas são.

Acho que falta ao mundo reparar.

Conversava com minha avó sobre uma de tantas e tantas coisas… Então ela disse: ” Não nasci palmatória do mundo.” A frase ficou linda, palavras pensadas, e surgiu numa naturalidade de parto normal sem dores, quase irreal de tão tranquila, palavras num encaixe bonito, paridas sem esforço.

Ela não nasceu palmatória do mundo.

Eu não nasci palmatória do mundo.

Por que então todo o mundo resolve condenar a castigar os seus? A cada esquina, um grita pra estendermos a mão, bate tapa com força, até ficar vergão.

Acho que faltam mais gentes que pensem e saibam dizer essas coisas bonitas e necessárias que diz minha avó.

Dei pra dizer todas as coisas que tenho vontade. Não sei aonde isso me levará. Vou solta, estou solta. Uma liberdade dentro. Uma leveza de folha, fica fácil voar.

Dei pra dizer que gostei, não gostei, sinto falta, amo, odeio, lamento…já não me apavora palavra como ‘humilhação’.

O mundo não costuma ser grato, mas a gente tem de ser honesto com os próprios olhos.

Pode ser que toda a gente ao meu redor não entenda nada, nadinha mesmo. Isso já não é problema meu, prometi apenas viver sincera a algo habitante no interior de mim, um eu nu, intenso, cru, e muito mais feliz.

Que o mundo não entenda, não peço isso, não peço mais nada.

Acho que isso é viver.

Mas como sempre, acho. Certezas são ideias vestidas em couraças. Mesmo amando ideias, eu não gosto de couraças. Isso de certeza me apavora.

Solto a segurança pra que corra até virar algo parecido com liberdade, assim, solta. Bem do jeito como gosto de ser e pensar.

Agulha na mão… Onde está meu coração? Se costuro rasgos, posso entrever logo ali, dentro ou fora, o fiapo que se perdeu. Ora, a vida é um eterno remendo?

A mãe, a criança, as tias com fome de visitas, a solidão nas ruas, olhos secos chupam o brilho dos dias de verão. E a agulha na mão, os pensamentos nos poros, meus pensamentos tem cheiro e ocupam o ar, e às vezes eles fedem. Exalo por quês.

Um colar de pérolas vermelhas se partiu, bolas e bolas rolando no chão. Eu chuto uma pérola ali, você chuta uma outra outra pérola ali, dia vem, alguém chuta minha alma, e as bolinhas vermelhas continuam a sina, rolando neste chão sujo de mundo. Lindas pérolas, imundas e feias, mas pérolas. E eu exalando por quês.

Com agulha na mão, vou fazendo pontinhos, pontinhos suaves, mão delicada; feridas já doeram demais o que tinha a doer. Vou costurando meu coração com uma renda amarela, pra eu pensar flores amarelas e atrair o sol.

Na casa  ficaram a vitrola e os vinis, e uma fome do que não se devorou, mas se quis.

Dia outro, os pés voltaram a percorrer a casa e se desvestiram dos sapatos pra sentir o piso, tornar pro chão. Foi quando o chão se fez céu. Ligou o que sobrou naquele espaço, e a música ocupou o vazio. Então o vazio zombou, porque nunca estivera ali, e as lembranças mostraram as mãos e se agarraram nas paredes, insinuantes, com poses de provocação.

Ela apenas assistia. Eram corpos que se fundiam, se enroscavam, se perdiam, se encontravam – descoberta. Eram voltas e voltas, e ela ali, descalça, assistindo a desejos. Desejos são atores na performance de uma monólogo, mesmo misturados a vários outros. Toda a verdade do mundo  vive senhora em cada um. E os corpos iam, voltavam, e as mãos sem pudor  se agarravam ao chão, ao teto, a ela.

E a música tocava. Tudo tocava.

Por um vinil o tempo parou pra ser mil coisas, sem ser nada, absolutamente nada. Ela assistia, quieta, respirando baixo, contendo os suspiros e negando as vontades.

Foi embora levando os sapatos na mão direita. Nem sequer desligou a vitrola.

Assim foi a segunda vez que se foi sem dizer do fim.

A isso eu chamo reticências, alguns, covardia.

Na Feira do Cerrado estava uma peça rara. Chapéu, laço rosa claro, colares de bolas coloridas, pequena, bem pequena.

Minha vó me segurou, forçando  a parada, enquanto observava a outra senhora, do lado de lá da banca, tão ajeitada e disposta.

É uma artesã, bem velha já, disse que era amiga de Cora Coralina. Mostrou suas feituras, ia mostrando e contando histórias da antiga Goiás, coisa que acho de pouco interesse. Interessante ali era ela mesma.

Queria minha avó ter perguntado a idade da outra. Quase uma questão de desafio, velado sim, mas pude perceber. Era um encanto, era um respeito, mas com um fio de disputa; como quem busca uma certa verdade pra logo depois ousar um “não estou muito atrás…” Parecia uma criança, admirada e assustada de deparar-se com outra criança.

Lúcida. Foi esta a palavra que Dona Osmarina usou para qualificar a artesã Yaciara. A idade ficamos sem saber, faltou coragem pra perguntar. Era pura curiosidade, mas cheia de vergonha de se passar por falta de educação.

Ontem um senhor me parou antes que eu entrasse com o carro na garagem. Acho que foi porque eu olhei pra ele, não sei.

Me pediu uns minutos e veio contar que meu carro vai sair de linha,  ele tem dois iguais, precisa repassar antes da desvalorização… Ele queria atençao, e eu dei. Puxava de uma perna e já estava envelhecido, e estava só.

De todas as palavras, a solidão não dita foi o que mais percebi.

Sorri ao fim, agradeci as informações, desejei sorte e fomos embora. Antes, ele apontou pro prédio ao lado, morava logo ali.

 

 

Minha terra judia nos meses de agosto a outubro. No meio do caminho, é primavera.

No anúncio da primavera, tem chuva, a chuva do cajú – uma das coisas que minha avó me ensinou. Outras coisas ela tenta me ensinar até hoje, mas tem jeito não. Culpa da diferença de ser entre nós. Mas o que nos aproxima, chamo amor.

Me descobri com medo, há pouco tempo. E o medo não é desses feitos traduzíveis e explicáveis com poucas palavras,  nem com poucas sensações. Medo é como pintar uma parede inteira, com cores possíveis e impossíveis, já vistas e outras nunca criadas. (Um soldadinho de medo resolveu se sentar no meu peito, e é pesado, embora não seja de chumbo.)

Minha avó ama o mar, gosta de ver o mar. Eu amo minha avó, gosto de ver minha avó. Pra mim ela é grande como o mar, barulhenta e linda de se observar. Me ensina, mesma com suas ondas bravas, com suas ressacas de todo dia, e me ensina mais ainda quando é brisa.

De agosto a outubro se sofre muito na minha terra, mas há a promessa da primavera com sua beleza, e a gente vai levando, sempre com uma raminho de folha seca, prova de esperança, nas mãos. Depois, se diz e se espera a chuva. Vem a chuva pra por fim ao sofrimento. Assim, em estações, como são as estações da vida.

É preciso entender como as coisas são.

É preciso respeitar as estações, e todas elas dão os seus sinais.

É assim.

Hoje escolho palavras soltas, porque as ideias estão livres, e com pouca vontade de tradução alheia.

Vi aves atravessando o ceu, e eu quis cortar estrada.

Até onde os olhos podem nos levar? Vi dois olhos grandes e doces, misteriosos e um tanto desinteressados, mas fascinantes.

Era mais uma ave forte que voa só. Tinha assim, assim, um jeito áspero que é só aparência. Não há agressividade em quem caminha com música nas costas. Os dois olhos grandes e doces levam som consigo, protegido num trançado de fios de algodão. Ele tem doçura, e nem sei se sabe. Doce como o som que pode fazer se soprar.

Vi aves cortando o ceu, e estiquei meus braços pra sentir, eu.

Mais um tempo, as asas vão mandar em mim, e eu atravesso o ceu.

Até lá, vou me encantando com a boniteza do que vem ao meu redor.

Um beijo a quem me lê, e até.

Esse mundo é uma curva…

E com palavras se brinca?

Palavras são um anãozinho fofo que de infantis e ingênuas não têm nada.

Que o digam os tombos que levei e minhas costas cansadas.

Surrada, mas feliz, sempre insisto em brincar com palavras pequenas, como essa de escrita simples que a boca de alguns pronunciam: amor.

E da soma das três, descreveu meu olhar.
Assim, com poesia despretensiosa, natural, simples. E as três palavras se colocaram a dançar ao meu redor, e a pulsar em mim; donas, senhoras do que trago no peito.
E achei bonito, e concordei em ser isso de um pouco tristeza, esperança e liberdade.
Hoje já me acalma simplesmente ser.

Um beijo a quem me lê, e até…
Volto à escrita.

Mariana Branco.

Curvas seguidas de precipícios e céu.

Já disseram e digo eu…

4º Motivo da Rosa / Não te aflijas com a pétala que voa: também é ser, deixar de ser assim. Rosas verá, só de cinzas franzida, mortas, intactas pelo teu jardim. Eu deixo aroma até nos meus espinhos ao longe, o vento vai falando de mim. E por perder-me é que vão me lembrando, por desfolhar-me é que não tenho fim. /Cecília Meireles

Esqueci-me dos pudores. Nem sei bem quando foi que existiram...
Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.